Em meio a uma crise eco-cultural, mulheres indígenas reconstroem resiliência no Quênia

Diante da crescente mudança climática, as mulheres indígenas estão relembrando e restabelecendo suas práticas agrícolas nativas no Quênia, para criar resiliência e recuperar sua relação com a terra.


By: Wangũi wa Kamonji
December 5, 2019

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Photo: Mwangi Kirubi/Flickr, edited (CC BY-NC 2.0)


Sabella Kaguna chega cedo numa quarta-feira pela manhã para me encontrar, com sementes nativas de milheto e sorgo na mão. Ela se descreve como agricultora, guardiã de um local sagrado e de sementes, e recuperadora da memória em sua comunidade no distrito de Tharaka, na região central do Quênia. Nos últimos seis anos, Sabella tem trabalhado para recuperar a memória sobre as sementes nativas e tradições sagradas de Tharaka, viajando para encontrar anciãs em vilas do interior para recuperar diversas variedades de sorgo, milheto e feijão de corda.

O sorgo, milheto e feijão de corda são originários da África, mas seu consumo diminuiu. Durante o passado colonial, o dinheiro necessário para os impostos e educação forçaram a adoção de culturas estrangeiras e, em algumas regiões, os missionários cristãos impuseram restrições à produção de culturas como o milheto usado em rituais indígenas. Na atualidade, a globalização e a urbanização causaram uma mudança no paladar, e governos e agências de pesquisa preferem direcionar recursos para a produção de arroz, trigo e milho. Estes três produtos fazem parte dos mercados internacionais, o que os torna propensos à volatilidade internacional de preços, como em 2007-08, que levaram a manifestações contra o preço dos alimentos em mais de vinte e cinco países. Além de estarem sujeitos às mazelas da crise climática.

Various seeds recovered in Tharaka at a community intercultural dialogue in 2015.

O Sul Global, incluindo países como o Quênia, vivencia o peso dessa crise climática agravada por anos de colonialismo patriarcal e missionário, educação ocidental e de uma economia capitalista que detém o Sul Global dependente da produção para um mercado do Norte. Estes fatores combinados enfraquecem a resiliência dos povos e terras indígenas e suas capacidades de responder às mudanças climáticas, criando uma crise ecológica e cultural. Moradores próximos ao rio Kathita, em Tharaka, descreveram um contexto de anos consecutivos com pouca chuva, dificuldades de acesso à água, uma crescente dependência de sementes e fertilizantes híbridos para produzir alimentos em solos que perderam nutrientes e um aumento correspondente na água necessária para a irrigação. Ao viajar pelo distrito, paisagens secas com pouca grama e cobertura vegetal, rios sazonais secos e rios permanentes rasos eram aparentes. A derrubada de árvores para produzir carvão vegetal expõe as paisagens já secas e com nutrientes em declínio ao clima em aquecimento, mas oferece para algumas pessoas um alívio momentâneo da esmagadora pobreza econômica.

No Norte Global, tornou-se mais comum declarar que os povos indígenas possuem as soluções para a crise climática. Essa retórica corre o risco de ser apenas da boca para fora caso as soluções não reconheçam e provenham recursos para o trabalho conduzido pelos povos indígenas para reparar danos às culturas nativas, se comprometam com o ressurgimento destes povos e integrem a sabedoria dos valores dos mesmos. Após décadas de descrédito, repressão e desvalorização, diversos conhecimentos nativos possuídos por grupos como os Tharaka foram esquecidos, ocultados ou prejudicados. As mulheres de Tharaka relataram que parecia que "tudo ia desaparecer". Enfrentar esta crise eco-cultural, lembrando e recuperando os conhecimentos e práticas das mulheres originárias, fundamentados em um paradigma de respeito e colaboração com a Terra, surgiu como um caminho para a resiliência.

Essa retórica corre o risco de ser apenas da boca para fora caso as soluções não reconheçam e provenham recursos para o trabalho conduzido pelos povos indígenas para reparar danos às culturas nativas, se comprometam com o ressurgimento destes povos e integrem a sabedoria dos valores dos mesmos.

A jornada de Kaguna para recuperar sementes nativas foi iniciada com a adesão à “Sociedade de Aprendizagem Alternativa e Transformação” (tradução livre para Society for Alternative Learning and Transformation - SALT, na denominação original em inglês), formada em 2013 para lembrar e restabelecer os conhecimentos e práticas originárias dos Tharaka. Sempre que os membros da Sociedade se encontram, trazem sementes nativas para compartilhar e doar - como as mulheres indígenas fariam tradicionalmente. As sementes são uma competência exclusiva das mulheres entre os Tharaka: as mulheres selecionam as sementes antes da colheita de alimentos, as classificam de acordo com as características desejadas e proveem sementes para os rituais.

Em Tharaka, a recuperação, o plantio e o processamento de sementes nativas vieram acompanhadas da retomada dos rituais e cerimônias nas quais estas sementes são centrais. As cerimônias são indicadores do amadurecimento de uma pessoa na comunidade, já os rituais estabelecem e mantêm relações entre os indivíduos e com a terra. Como as chuvas de outubro marcam o início do ano indígena, o ritual kuangia mburi é realizado para começar o ano, rezar por boas chuvas e buscar bênçãos para a terra. As mulheres proveem o mingau de milheto pérola especialmente preparado, organizam as crianças para andar pelas fronteiras da vila e coletam as sementes que serão plantadas. Uma anciã e respeitada planta quatro sementes cerimoniais antes dos demais e, desta forma, todo o plantio da comunidade é abençoado. Kaguna explicou que para os Tharaka, meninas e mulheres são o canal de bênçãos para o lar e para a comunidade. Caso pragas e doenças atinjam as plantações, as mulheres têm o papel de proteger as fazendas por meio de orações acompanhadas de mingau de milheto pérola no ritual kutiia.

Lembrar e restabelecer o papel das mulheres de Tharaka implica que o respeito e o valor que as mulheres detinham antes, mas para os quais não há espaço em uma concepção de mundo patriarcal colonial-capitalista, estão voltando. Salome Gatumi, anciã e especialista em grãos, relatou que jovens, incluindo estudantes de uma universidade local de matiz ocidental, a visitam para aprender o que está faltando em uma educação voltada para uma economia de produção industrial. Kanyani, que aprendeu sobre grãos com Gatumi, se alegra que, embora não tenha perdido seus costumes nativos, por meio deste trabalho relacionado à memória, se dá conta que não está "presa no passado".

Recuperar o conhecimento e as práticas das mulheres também implica em menos dependência da economia capitalista. Muregi, que também está envolvida no grupo de memória, relata com orgulho que seus netos insistem em tomar mingau de milheto e comer kithongo, uma especialidade de Tharaka feita com milheto, feijão de corda e folhas de feijão-caupi, ao invés de arroz branco comprado em supermercados e refrigerantes adoçados que ela costumava dar para eles. Mudar a dieta de seus netos para esses alimentos altamente nutritivos significa que ela confia mais em sua fazenda e em seus conhecimentos, e que seus netos estão muito mais saudáveis e fortes. Desta forma, Muregi tem menos necessidade de ir a supermercados e hospitais.

Sabella Kaguna, Tharaka seed custodian.

No entanto, o esforço para recuperar sementes, cerimônias e rituais nativos não deixa de ter desafios. Ao caminhar por uma vila, encontramos um homem da associação de produtores de cereais que promove o uso de sementes híbridas, fertilizantes artificiais e pesticidas para agricultores rurais. Monica, a nora de Gatumi, descreveu como essas organizações e empresas "presenteiam" os agricultores com um pacote de sementes híbridas e fertilizantes para o cultivo da primeira temporada, vinculando-os assim a um uso contínuo. Além da dependência econômica resultante, esse tipo de agricultura agrava o risco climático de regiões secas como Tharaka. Os fertilizantes artificiais precisam de condições ideais para funcionar, incluindo um suprimento suficiente de água, que é escassa em Tharaka. Eles também reduzem a capacidade do solo de reter nitrogênio, degradam a estrutura e os nutrientes do solo ao longo do tempo, e liberam gases de efeito estufa na atmosfera. Sementes híbridas não podem ser usadas em cerimônias indígenas, e plantá-las requer que sementes sejam compradas a cada estação. Em diversos países africanos, uma poderosa confluência de governos estrangeiros, organizações e empresas privadas está determinada a converter o sistema de sementes nativas a esse modelo industrial em detrimento dos agricultores e ecossistemas locais.

No entanto, as mulheres em Tharaka são incansáveis no plantio, processamento, compartilhamento e discussão sobre suas sementes como uma forma de recuperar a resiliência às perdas culturais e à crise de um colapso ecológico causado primeiramente pela colonização. Em um momento de crise e transformação internacional, essa recuperação e reavaliação dos conhecimentos e práticas das mulheres indígenas contém as sementes de modos de vida novos e antigos que nos ensinam como reparar as relações - entre as pessoas e com a Terra - em direção a um futuro de resiliência ecológica e cultural. Tratam-se de locais férteis onde podemos cultivar solidariedade com os povos originários, ouvindo, gerando recursos e provendo espaço para esses processos florescerem - aprendendo com os esforços nativos para lembrar e restaurar seus modos de vida.

 


Wangũi wa Kamonji é pesquisadora independente, dançarina, escritora e facilitadora. A África, a ancestralidade e a Terra são temas centrais em seu trabalho. Wangũi mora no Quênia. @_fromtheroots.


 

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